EURO 2016: Ronaldo in the mixed zone after the final | July 10, 2016
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(via daily-football)
Uma ideia a mais
As vitórias ou são o culminar de um trabalho ou são uma merda que acontece e sobre a qual tentamos construir um futuro. Construir sobre uma merda que simplesmente aconteceu nunca dá em nada (Inglaterra 66, Dinamarca 92, Grécia 2004) e o culminar de um trabalho não é propriamente uma merda portuguesa. O que é que foi esta merda, afinal?
Na pior das hipóteses esta vitória portuguesa culminou a construção de um passado: já podemos dizer sem elaborações preciosísticas que o Euro 2016 foi o tal culminar de um trabalho; as sucessivas participações em fases finais do Euro e Mundiais podem a partir de agora ser vistas como degraus para este título. Não somos, de nenhuma maneira, a Grécia.
Mas também não somos os filhos da puta dos Franceses: se a oscilação do acaso frequentemente condena países como a França e a Alemanha a periodos de inconsequência, Portugal, numericamente miúdo, frouxamente organizado e tragicamente animados, não pode senão aceitar de braços abertos a certeza frequente dessa fatalidade.
De braços abertos não é, todavia, de cabeça fechada. Podemos e devemos pensar sobre estas merdas. No meu entender pensar sobre esta vitória representa acima de tudo ter uma relação saudável com o acaso; a sorte que nos calhou não foi uma particularização do universo sobre nós, mas algo a que com genial insistência nos soubemos expôr.
Tivémos o mérito de pouca coisa fazer para que isto não nos acontecesse, mesmo que também não tivéssemos feito grande coisa para que às nossas acções sucedesse uma tão épica vitória.
Sucedeu-nos ser o melhor país do mundo a jogar futebol; não sucede, todavia, que não saber como isto nos aconteceu nos deva animar a conservar tudo o que recebemos e nos possibilitou esta vitória. Porque uma coisa me parece clara: quando a estes anos de brilhantes jogadores e brilhante futebol se seguir o inevitável abaixamento de poderio, a Portugal não acontecerá apenas a tradicional corrupção do significado da derrota, como também porá em causa a nobreza do lugar que este título vai ocupar na alma da nação.
Precisamos de mudar um pouco para que colemos firmemente esta vitória a um pedestal com verdadeiro potencial edificante. Para começar, não se pode, de nenhuma maneira, falhar o apuramento para o Mundial de 2018. Sem esta consequência qualquer consolidação será um fracasso: a partir de Setembro temos que jogar todos os jogos de forma absolutamente desesperada, ou seja, provavelmente com um futebol horrivel.
Depois, quando o apuramento estiver em águas calmas, recomeçar a tentar “jogar bem”. Defendo que este deve ser o título a que devemos ambicionar nos próximos anos: voltar ao futebol solícito com os desejos das crianças, que foi o que, na minha maneira de ver as merdas, sempre esteve na raiz de nos aparecerem do pó do chão e do nevoeiro da manhã tantos eusébios, chalanas, futres, figos, ruis costas, cristianos ronaldos, quaresmas e etc.
Sim, acho que o nível e perfeição do cinismo futebolíticos que atingimos neste europeu tem ligação genealógica directa com o jogador que fazia sempre uma finta a mais. Não foi uma merda que nos nasceu por arquitectura colectiva (como nos nórdicos), foi antes algo que brotou de um improviso, foi um desenrascanço; ora, como todos os desenrascanços improvisados no joelho (cristiano ronaldo!), têm um prazo de validade útil muito fácil de contrariar por quem nos vê, o que no caso em apreço é o mundo inteiro.
Revertamos à inobjectividade; façamos dos rodriguinhos o agente de uma reconquistada consistência. Quando no próximo Mundial vieram jogar connosco, fodamo-los com o futebol espectáculo! Podem ganhar-nos, mas vamos informar-lhes do seguinte: o futebol que praticamos somos nós que o escolhemos.
Não residirá aqui o mérito que mais orgulha? Ter um jogo pela frente e fazer dele um campo de experimentação de tudo o que nos constitui, não uma simples colecção de bocadinhos cientificamente selecionados e metodicamente articulados por forma a maximizar as dificuldades que causamos aos outros; a imaginação serve para quê, caralho? Para um gajo se divertir, foda-se, para um gajo se divertir!
Sou às vezes acusado por mim próprio de estetizar o ditatorialismo do desejo de vitória, de condenar todos aqueles que diminuem as suas hipóteses de ganhar para ensaboar o futebol esteticamente atrativo (ex: hungria, eslováquia); acuso-me, e bem, porque o reforço!
O que defendo para Portugal, no seu génio futebolístico, não é o futebol para o espectáculo da audiência, mas para que o prazer de quem lá dentro o está a jogar; e alguém se diverte esgotando uma vida a reforçar-se em função do outro colectivo? Não, foda-se, isso é um comício e as pessoas só gostam de comicios se houver cerveja, e infelizmente futebol e cerveja não conjuga.
Proponho maximizarmos a nossas hipóteses de vitória re-inflacionando o prazer que proporcionamos ao jogador de campo em jogá-lo. Não se tente ver nisto um projecto, um programa, um método, deus nos livre salve bruno de carvalho guarde!; veja-se apenas como mais uma finta, uma finta a mais.
maradona
Nem deixar não jogar
Há lições a tirar do França-alemanha de ontem; para que este advento nos desça sobre os cornos e nos possa ser útil para a derrota do próximo domingo, no entanto, é preciso saber saber, o que, no caso em específico, não considero ser um inquérito filosófico de destino óbvio.
Se o Portugal-Ingleses do Oeste decorreu integralmente dentro das leis (estou convencido, Carla Quevedo, que nem a EMEL tinha por onde lhe pegar), o França-Alemanha corrompeu uma série de protocolos rituais a que as pessoas de bem estavam justa e confortavelmente acomodadas.
Não foi só a França ter ganho à Alemanha; foi, Jesus Salvador o louvado, a Alemanha ter perdido simultaneamente a ter sido uma equipa superior. Se custa ganhar à Alemanha quando a Alemanha não joga um caralho, ganhar à Alemanha quando a Alemanha nos é superior é algo que deve merecer a prisão de todas as pessoas envolvidas seguido de uma rigorasa investigação para averiguar do que é que são culpadas, bem como umas multazinhas avulsas da Emel à Cândida Silva.
Mas não há tempo, temos três dias, e, valha a verdade, o positivismo lógico já viu melhores dias; a solução, muito naturalmente, é abraçar as impressões, olhar para o lago cristalino com os nenúfares em flor não como um ecossistema natural, mas como um atiçador dos sentimentos que no nosso peito dormem ao som da voz do Bruno de Carvalho. Viva Portugal!
A Alemanha foi, é, melhor tática, estratégica, logo, colectivamente; isto é: joga mellhor à bola. Está desta forma o assunto Alemanha, espero que definitiva e espectacularmente conclusivamente, arrumado.
Resta-nos a França; a França não tem uma organização que obviamente reflita as características dos seus jogadores, nem se vislumbra que a sua hipotética ideia pretenda atingir um carácter e personalidade específicas; é uma brecha mal amanhada de cidadãos pretos com pernas extremamente musculadas e um bailarino por quem o goethe se apaixonaria, que, por causa disso, chegam primeiro às bolas que as outras pessoas: é esta a minha análise, chupa Bertrand Russel.
A França ganhou à Alemanha porque os seus jogadores ganharam TODOS os duelos individuais defensivos: uma vez sem exemplo aqui as palavras fazem TODAS falta: os, jogadores, da, França, ganharam, todos, os, duelos, defensivos, individuais. Desconfio que aquele tal de Umtiti e o outro tal de Sissoko, então, estavam num tal estado de açambarcamento que só por uma nesga de inteligência instintiva primordial conseguiram não entrar em vertigem de loop defensivo auto destrutivo queexplodisse termonuclearmente à menor faísca.
O brilhantismo individual defensivo dos franceses atingiu um nível de perfeição tal que diluiu as consequências táctitas da superioridade intelectual alemã; deliciei-me muitas vezes com os projectos colectivos de jogo que fazem com que equipas de badamecos ganhem a equipas de génios - o Inter de Mourinho contra o Barcelona de Guardiola residirá para sempre na minha memória, ao lado dos melhores broches -; vi também algumas vezes equipas de grandes jogadores excepcionalmente treinadas destruidas por actos individuais de excelência celeste atacante: o Maradona.
Mas nem em imaginação me passara pela cabeça um dia poder assistir a um jogo em que uma equipa com a maturidade e profundidades técnica, táctica e individual da Alemanha pudesse ser derrotada por esta espécie de involuntário atomismo defensivo extremo, numa eficácia defensiva que derivou não da projecção no terreno de uma organização, mas de uma infindável sucessão de acontecimentos isolados; foi como se aquilo do “futebol é um jogo e no fim ganha a alemanha” tivesse sido transformado no “a Alemanha é muito melhor que a França nas merdas todas mas no fim um jogador da França rouba a bola ao jogador da Alemanha em posse da mesma”.
Ou seja: era jogo para zero-zero mas aconteceram dois halleys e a França ganhou à Alemanha; mas a França não jogou para o zero-zero para poder beneficiar de um golpe de sorte, isso implicava um plano de jogo: como se viu no inicio, o plano da França era dominar a Alemanha, ficar-lhe com a bola; mas, tadinhos, não foram capazes. Assim que se viram dissolvidos pela magnificiência além-reno, pelos 10 minutos, os jogadores como que reverteram ao seu estado pré-social, e cada um passou a fazer aquilo que ou sabia ou podia: andar a atrás das jogadas dos alemães e a tentar interrompe-las com roubos de bola, o que conseguiram de todas e cada uma das vezes até estarem a ganhar por dois-zero, altura em que esbarraram com a hipótese de vitória e começaram a querer novamente a ter um plano de jogo: defender o resultado; desde aí, nos últimos dez ou quinze minutos, podiam ter levado 4 batatas, mas benificiaram da diluição dos valores ocidentais e a Alemanha não marcou no fim (5 euros para o galheiro).
É um espanto permamente, um daqueles algorítmos básicos que, em vez de nos amputar a imaginação, glorifica religiosamente a experiência: as merdas no futebol acontecem. Na ausência da fé o que nos vai salvando é que às vezes as merdas acontecem de forma especialmente bonita e interessante, e acho que este foi um desses casos.
Extrair uma consequência disto que seja resultadisticamente útil a Portugal é um projecto inverossímil: é como se o Umtiti tivesse entrado aqui no ecrã do computador e cortado para a marginália a intenção analítica que demonstrei no primerio parágrafo chegasse agora à sua conclusão.
Não me apoquenta a derrota a que cheguei na conclusão deste alívio, porque considero que nela reside a única sensação positivista possível de derivar do Alemanha-França, pelo menos uma capaz de ser transformada num curso de acção inteigível: a França só será derrotável se Portugal foder aqueles filhos de um comboio de bordeis de putas. Umtitis e Sissokos e mais vaca das maezinhas deles não permitem que uma jogada chegue à sua conclusão? Então não façamos jogada alguma! 120 minutos sem uma jogada de futebol que seja, é a minha prece! Vão cortar bolas para cona da prima deles.
Tenho confiança no Fernando Santos, no Pepe, no Cristiano Ronaldo, no Renato Sanches, no João Mário, no Rapheal Guerreiro, no Adrien, no William Carvalho, em Portugal Continental e Ilhas. Saberemos ganhar perdendo de forma que não orgulhe os franceses: terão como final do seu torneio, e a coroar esta sua conquista, um jogo de futebol tal que se o seu filme fosse o único exemplo de futebol que sobrasse para uma civilização futura não conseguiriam extrair-lhe regras ou significado: concluiriam que o futebol era uma duna de areia junta pelo vento.
maradona
Q
Anonymous asked:
Tenho aqui um dilema: por um lado, acho que há uma necessidade histórica que garanta que os melhores esmaguem os pequeninos, por forma a que daqui a 12 anos a canalha não se questione sobre o que se passou aqui; por outro, quem é que resiste a uns pequeninos a ir à boca aos grandalhões? Qual é o caminho eticamente correcto a tomar?
A
É o velho dilema entre mamas e rabos.
maradona
Ottis Redding é só com um “t”
Tenho o disco da frente da minha KTM a ranger um barulho que profundamente incomoda tanto a pessoa de bem como o psicopata, e até aqui o nandinho, místico borrego e redentor de todos os sons parasitas do universo, se viu na obrigação de abortar a exploração de mais um incógnito barranco algarvio em favor de uma visita aos curandeiros da GRide; principalmente se estamos a pedalar nas brenhas da serra (como foi o caso) ao som da banda sonora das seis da manhã (como foi o caso), a menor das perturbações sonoras inanimadas, sejam elas periódicas (como foi o caso) ou aperiódicas, possuem o poder do visgo nas patas de um troglodytes troglodytes. A hipótese que coloco é que aquilo que tem impedido o André Gomes de jogar à bola é também um barulho parasita, mas dentro dos cornos. É a minha análise.
maradona
Classe
O jogo com a Croácia produziu dois mártires: Adrien e Cristiano Ronaldo. Adrien levou com o Modric e com o Rakitic (à vez e, por vezes, ao mesmo tempo) e Cristiano Ronaldo com o nada enrolado no vazio embrulhado no vácuo (Churchill). Aos dois devemos agradecimento: o sacrificio de conterrâneos nossos por terras francesas é uma tradição que devemos homenagear com seriedade incomensurável. Peço portanto às leitoras que eventualmente leiam estas linhas que, se um dia com eles se cruzarem, lhes façam um broche como agradecimento pessoal meu; para não dizerem que não dou nada em troca, pela minha parte prometo, como agradecimento pessoal vosso e assim a oportunidade desça, deixar que a Paula Moura Pinheiro me faça um broche a mim.
maradona
Desde que não me perguntem por onde é que quero as patilhas
O Guardian até lançou uma discussão online sobre o assunto: “Was Croatia v Portugal the worst match at a major tournament?”. Isto são pessoas que terão achado o Alemanha-Eslováquia e o Bélgica-Hungria excelentes jogos de futebol; previsivelmente só não foram melhores ainda porque a Alemanha não ganhou por oito a zero e a Bélgica não venceu por dezassete a seis, resultados estes que, não fossem a condescendência estratégica dos bismarks e a vadiagem impragmática dos leopoldos, corresponderiam na exactidão ao caótico desequilibrio ocorrido nos encontros em apreço. Meus filhos da puta.
Vivemos portanto um momento em que se valoriza esteticamente o masoquismo futebolístico; para o espectador de desporto desejar ganhar deixou de ser um resultado suficiente e desejável, porque o que agora aparentemente define a nossa avaliação qualitativa de uma disputa física e intelectual entre dois grupos de homens (ou de gajas, não quero que a Mariana Cabral se zangue comigo) é a quantidade do resultado.
E mesmo quando não falamos da quantidade do resultado, falamos da quantidade de merdas que num jogo de futebol frequentemente originam golos: número de ataques, número de cantos, número de remates; ai o primeiro remate de portugal só aconteceu aos 117 minutos!: e o caralho com que o vosso pai fodeu a vossa mãe, foi a que horas?
Logicamente que a incapacidade de saber apreciar aquilo que num jogo de futebol tem como função evitar a ocorrência de um golo é inteiramente irracional, mas trata-se de uma emoção que, racionalmente (dada a natureza das merdas), se compreende; outra coisa inteiramente diferente, e irracional (onde reside a imoralidade das merdas), é deixar que o tédio subjugue o nosso julgamento a uma mera estatística de emoções: isto seria deixar ao apodrecimento o núcleo mais nobre do desporto, sem o qual qualquer valor que lhe associemos será definitivamente corrompido: ganhar.
O Portugal-Croácia foi o mais espectacularmente bonito jogo deste europeu. Portugal decidiu arder no inferno montando uma estratégia para tentar ganhar à Croácia, uma equipa que naquele dia dispunha de uma situação conjuntural muito mais favorável que a nossa, o que conseguiu; já a ideia da Eslováquia e da Hungria foi sair do Euro 2016 sem que o Guardian e outros filhos de um carrocel de putas lhes apontassem falta de solidariedade em promover o espetáculo, o que também conseguiram.
Sim, eu sei, a ideia deste texto tinha como reforço certo a senhora dona sua excelência toda poderosa, a sorte: Portugal ganhou. Mas notem, podemos aqui magnificar esta merda com um paralelo potencialmente interessante: existem muitos que acham o futebol do Barcelona “chato”; as pessoas que se deixam hostilizar por quem se entedia com o Barcelona recorrem à radicalizão da incompreenção boicotando o diálogo, infrequentemente se lembram de apontar que é um futebol vencedor, que aquilo resulta: porquê o pudor em importar em auxilio da sua teoria este utilitarismo óbvio?
O instinto do futebol como espetáculo contra o desejo de vitória está tão subconscientemente arraigado que nem os adeptos do (defensavelmente) mais espetacular futebol de sempre se deixam manipular pelo argumento ímpio que representaria lembrar que a sua utilização teve como consequência terem ganho montes de merdas.
São 15:17, reside aqui no nandinho um calor do caralho, mas está prestes a começar o Itália-Espanha e espera-me um pratinho de biqueirão, chupa Carlos Coelho! Revolucionariamente, espero que a Itália e a Espanha tentem ganhar descuidadamente dos vossos interesses; o meu sonho é que ganhe a equipa que marque menos golos, sem que a Itália alguma vez toque na bola, com a Espanha a fazer oitocentos e ciquenta e três mil passes pequenos no meio campo. Que seja tudo tão “chato” que até o Marcelo Rebelo de Sousa se aborreça.
O Maradona das pampas
Hoje o Messi faz 29 anos; é por conseguinte atempado lembrar-vos o que vocês não recordam suficientes vezes: a vossa vida consciente coabita temporalmente com a actividade futebolística profissional do Messi. Não é muito complicado.
maradona