O Guardian até lançou uma discussão online sobre o assunto: “Was Croatia v Portugal the worst match at a major tournament?”. Isto são pessoas que terão achado o Alemanha-Eslováquia e o Bélgica-Hungria excelentes jogos de futebol; previsivelmente só não foram melhores ainda porque a Alemanha não ganhou por oito a zero e a Bélgica não venceu por dezassete a seis, resultados estes que, não fossem a condescendência estratégica dos bismarks e a vadiagem impragmática dos leopoldos, corresponderiam na exactidão ao caótico desequilibrio ocorrido nos encontros em apreço. Meus filhos da puta.
Vivemos portanto um momento em que se valoriza esteticamente o masoquismo futebolístico; para o espectador de desporto desejar ganhar deixou de ser um resultado suficiente e desejável, porque o que agora aparentemente define a nossa avaliação qualitativa de uma disputa física e intelectual entre dois grupos de homens (ou de gajas, não quero que a Mariana Cabral se zangue comigo) é a quantidade do resultado.
E mesmo quando não falamos da quantidade do resultado, falamos da quantidade de merdas que num jogo de futebol frequentemente originam golos: número de ataques, número de cantos, número de remates; ai o primeiro remate de portugal só aconteceu aos 117 minutos!: e o caralho com que o vosso pai fodeu a vossa mãe, foi a que horas?
Logicamente que a incapacidade de saber apreciar aquilo que num jogo de futebol tem como função evitar a ocorrência de um golo é inteiramente irracional, mas trata-se de uma emoção que, racionalmente (dada a natureza das merdas), se compreende; outra coisa inteiramente diferente, e irracional (onde reside a imoralidade das merdas), é deixar que o tédio subjugue o nosso julgamento a uma mera estatística de emoções: isto seria deixar ao apodrecimento o núcleo mais nobre do desporto, sem o qual qualquer valor que lhe associemos será definitivamente corrompido: ganhar.
O Portugal-Croácia foi o mais espectacularmente bonito jogo deste europeu. Portugal decidiu arder no inferno montando uma estratégia para tentar ganhar à Croácia, uma equipa que naquele dia dispunha de uma situação conjuntural muito mais favorável que a nossa, o que conseguiu; já a ideia da Eslováquia e da Hungria foi sair do Euro 2016 sem que o Guardian e outros filhos de um carrocel de putas lhes apontassem falta de solidariedade em promover o espetáculo, o que também conseguiram.
Sim, eu sei, a ideia deste texto tinha como reforço certo a senhora dona sua excelência toda poderosa, a sorte: Portugal ganhou. Mas notem, podemos aqui magnificar esta merda com um paralelo potencialmente interessante: existem muitos que acham o futebol do Barcelona “chato”; as pessoas que se deixam hostilizar por quem se entedia com o Barcelona recorrem à radicalizão da incompreenção boicotando o diálogo, infrequentemente se lembram de apontar que é um futebol vencedor, que aquilo resulta: porquê o pudor em importar em auxilio da sua teoria este utilitarismo óbvio?
O instinto do futebol como espetáculo contra o desejo de vitória está tão subconscientemente arraigado que nem os adeptos do (defensavelmente) mais espetacular futebol de sempre se deixam manipular pelo argumento ímpio que representaria lembrar que a sua utilização teve como consequência terem ganho montes de merdas.
São 15:17, reside aqui no nandinho um calor do caralho, mas está prestes a começar o Itália-Espanha e espera-me um pratinho de biqueirão, chupa Carlos Coelho! Revolucionariamente, espero que a Itália e a Espanha tentem ganhar descuidadamente dos vossos interesses; o meu sonho é que ganhe a equipa que marque menos golos, sem que a Itália alguma vez toque na bola, com a Espanha a fazer oitocentos e ciquenta e três mil passes pequenos no meio campo. Que seja tudo tão “chato” que até o Marcelo Rebelo de Sousa se aborreça.