Há lições a tirar do França-alemanha de ontem; para que este advento nos desça sobre os cornos e nos possa ser útil para a derrota do próximo domingo, no entanto, é preciso saber saber, o que, no caso em específico, não considero ser um inquérito filosófico de destino óbvio.
Se o Portugal-Ingleses do Oeste decorreu integralmente dentro das leis (estou convencido, Carla Quevedo, que nem a EMEL tinha por onde lhe pegar), o França-Alemanha corrompeu uma série de protocolos rituais a que as pessoas de bem estavam justa e confortavelmente acomodadas.
Não foi só a França ter ganho à Alemanha; foi, Jesus Salvador o louvado, a Alemanha ter perdido simultaneamente a ter sido uma equipa superior. Se custa ganhar à Alemanha quando a Alemanha não joga um caralho, ganhar à Alemanha quando a Alemanha nos é superior é algo que deve merecer a prisão de todas as pessoas envolvidas seguido de uma rigorasa investigação para averiguar do que é que são culpadas, bem como umas multazinhas avulsas da Emel à Cândida Silva.
Mas não há tempo, temos três dias, e, valha a verdade, o positivismo lógico já viu melhores dias; a solução, muito naturalmente, é abraçar as impressões, olhar para o lago cristalino com os nenúfares em flor não como um ecossistema natural, mas como um atiçador dos sentimentos que no nosso peito dormem ao som da voz do Bruno de Carvalho. Viva Portugal!
A Alemanha foi, é, melhor tática, estratégica, logo, colectivamente; isto é: joga mellhor à bola. Está desta forma o assunto Alemanha, espero que definitiva e espectacularmente conclusivamente, arrumado.
Resta-nos a França; a França não tem uma organização que obviamente reflita as características dos seus jogadores, nem se vislumbra que a sua hipotética ideia pretenda atingir um carácter e personalidade específicas; é uma brecha mal amanhada de cidadãos pretos com pernas extremamente musculadas e um bailarino por quem o goethe se apaixonaria, que, por causa disso, chegam primeiro às bolas que as outras pessoas: é esta a minha análise, chupa Bertrand Russel.
A França ganhou à Alemanha porque os seus jogadores ganharam TODOS os duelos individuais defensivos: uma vez sem exemplo aqui as palavras fazem TODAS falta: os, jogadores, da, França, ganharam, todos, os, duelos, defensivos, individuais. Desconfio que aquele tal de Umtiti e o outro tal de Sissoko, então, estavam num tal estado de açambarcamento que só por uma nesga de inteligência instintiva primordial conseguiram não entrar em vertigem de loop defensivo auto destrutivo queexplodisse termonuclearmente à menor faísca.
O brilhantismo individual defensivo dos franceses atingiu um nível de perfeição tal que diluiu as consequências táctitas da superioridade intelectual alemã; deliciei-me muitas vezes com os projectos colectivos de jogo que fazem com que equipas de badamecos ganhem a equipas de génios - o Inter de Mourinho contra o Barcelona de Guardiola residirá para sempre na minha memória, ao lado dos melhores broches -; vi também algumas vezes equipas de grandes jogadores excepcionalmente treinadas destruidas por actos individuais de excelência celeste atacante: o Maradona.
Mas nem em imaginação me passara pela cabeça um dia poder assistir a um jogo em que uma equipa com a maturidade e profundidades técnica, táctica e individual da Alemanha pudesse ser derrotada por esta espécie de involuntário atomismo defensivo extremo, numa eficácia defensiva que derivou não da projecção no terreno de uma organização, mas de uma infindável sucessão de acontecimentos isolados; foi como se aquilo do “futebol é um jogo e no fim ganha a alemanha” tivesse sido transformado no “a Alemanha é muito melhor que a França nas merdas todas mas no fim um jogador da França rouba a bola ao jogador da Alemanha em posse da mesma”.
Ou seja: era jogo para zero-zero mas aconteceram dois halleys e a França ganhou à Alemanha; mas a França não jogou para o zero-zero para poder beneficiar de um golpe de sorte, isso implicava um plano de jogo: como se viu no inicio, o plano da França era dominar a Alemanha, ficar-lhe com a bola; mas, tadinhos, não foram capazes. Assim que se viram dissolvidos pela magnificiência além-reno, pelos 10 minutos, os jogadores como que reverteram ao seu estado pré-social, e cada um passou a fazer aquilo que ou sabia ou podia: andar a atrás das jogadas dos alemães e a tentar interrompe-las com roubos de bola, o que conseguiram de todas e cada uma das vezes até estarem a ganhar por dois-zero, altura em que esbarraram com a hipótese de vitória e começaram a querer novamente a ter um plano de jogo: defender o resultado; desde aí, nos últimos dez ou quinze minutos, podiam ter levado 4 batatas, mas benificiaram da diluição dos valores ocidentais e a Alemanha não marcou no fim (5 euros para o galheiro).
É um espanto permamente, um daqueles algorítmos básicos que, em vez de nos amputar a imaginação, glorifica religiosamente a experiência: as merdas no futebol acontecem. Na ausência da fé o que nos vai salvando é que às vezes as merdas acontecem de forma especialmente bonita e interessante, e acho que este foi um desses casos.
Extrair uma consequência disto que seja resultadisticamente útil a Portugal é um projecto inverossímil: é como se o Umtiti tivesse entrado aqui no ecrã do computador e cortado para a marginália a intenção analítica que demonstrei no primerio parágrafo chegasse agora à sua conclusão.
Não me apoquenta a derrota a que cheguei na conclusão deste alívio, porque considero que nela reside a única sensação positivista possível de derivar do Alemanha-França, pelo menos uma capaz de ser transformada num curso de acção inteigível: a França só será derrotável se Portugal foder aqueles filhos de um comboio de bordeis de putas. Umtitis e Sissokos e mais vaca das maezinhas deles não permitem que uma jogada chegue à sua conclusão? Então não façamos jogada alguma! 120 minutos sem uma jogada de futebol que seja, é a minha prece! Vão cortar bolas para cona da prima deles.
Tenho confiança no Fernando Santos, no Pepe, no Cristiano Ronaldo, no Renato Sanches, no João Mário, no Rapheal Guerreiro, no Adrien, no William Carvalho, em Portugal Continental e Ilhas. Saberemos ganhar perdendo de forma que não orgulhe os franceses: terão como final do seu torneio, e a coroar esta sua conquista, um jogo de futebol tal que se o seu filme fosse o único exemplo de futebol que sobrasse para uma civilização futura não conseguiriam extrair-lhe regras ou significado: concluiriam que o futebol era uma duna de areia junta pelo vento.
maradona