Uma ideia a mais

As vitórias ou são o culminar de um trabalho ou são uma merda que acontece e sobre a qual tentamos construir um futuro. Construir sobre uma merda que simplesmente aconteceu nunca dá em nada (Inglaterra 66, Dinamarca 92, Grécia 2004) e o culminar de um trabalho não é propriamente uma merda portuguesa. O que é que foi esta merda, afinal?

Na pior das hipóteses esta vitória portuguesa culminou a construção de um passado: já podemos dizer sem elaborações preciosísticas que o Euro 2016 foi o tal culminar de um trabalho; as sucessivas participações em fases finais do Euro e Mundiais podem a partir de agora ser vistas como degraus para este título. Não somos, de nenhuma maneira, a Grécia.

Mas também não somos os filhos da puta dos Franceses: se a oscilação do acaso frequentemente condena países como a França e a Alemanha a periodos de inconsequência, Portugal, numericamente miúdo, frouxamente organizado e tragicamente animados, não pode senão aceitar de braços abertos a certeza frequente dessa fatalidade.

De braços abertos não é, todavia, de cabeça fechada. Podemos e devemos pensar sobre estas merdas. No meu entender pensar sobre esta vitória representa acima de tudo ter uma relação saudável com o acaso; a sorte que nos calhou não foi uma particularização do universo sobre nós, mas algo a que com genial insistência nos soubemos expôr. 

Tivémos o mérito de pouca coisa fazer para que isto não nos acontecesse, mesmo que também não tivéssemos feito grande coisa para que às nossas acções sucedesse uma tão épica vitória.

Sucedeu-nos ser o melhor país do mundo a jogar futebol; não sucede, todavia, que não saber como isto nos aconteceu nos deva animar a conservar tudo o que recebemos e nos possibilitou esta vitória. Porque uma coisa me parece clara: quando a estes anos de brilhantes jogadores e brilhante futebol se seguir o inevitável abaixamento de poderio, a Portugal não acontecerá apenas a tradicional corrupção do significado da derrota, como também porá em causa a nobreza do lugar que este título vai ocupar na alma da nação.

Precisamos de mudar um pouco para que colemos firmemente esta vitória a um pedestal com verdadeiro potencial edificante. Para começar, não se pode, de nenhuma maneira, falhar o apuramento para o Mundial de 2018. Sem esta consequência qualquer consolidação será um fracasso: a partir de Setembro temos que jogar todos os jogos de forma absolutamente desesperada, ou seja, provavelmente com um futebol horrivel.

Depois, quando o apuramento estiver em águas calmas, recomeçar a tentar “jogar bem”. Defendo que este deve ser o título a que devemos ambicionar nos próximos anos: voltar ao futebol solícito com os desejos das crianças, que foi o que, na minha maneira de ver as merdas, sempre esteve na raiz de nos aparecerem do pó do chão e do nevoeiro da manhã  tantos eusébios, chalanas, futres, figos, ruis costas, cristianos ronaldos, quaresmas e etc. 

Sim, acho que o nível e perfeição do cinismo futebolíticos que atingimos neste europeu tem ligação genealógica directa com o jogador que fazia sempre uma finta a mais. Não foi uma merda que nos nasceu por arquitectura colectiva (como nos nórdicos), foi antes algo que brotou de um improviso, foi um desenrascanço; ora, como todos os desenrascanços improvisados no joelho (cristiano ronaldo!), têm um prazo de validade útil muito fácil de contrariar por quem nos vê, o que no caso em apreço é o mundo inteiro.

Revertamos à inobjectividade; façamos dos rodriguinhos o agente de uma reconquistada consistência. Quando no próximo Mundial vieram jogar connosco, fodamo-los com o futebol espectáculo! Podem ganhar-nos, mas vamos informar-lhes do seguinte: o futebol que praticamos somos nós que o escolhemos. 

Não residirá aqui o mérito que mais orgulha? Ter um jogo pela frente e fazer dele um campo de experimentação de tudo o que nos constitui, não uma simples colecção de bocadinhos cientificamente selecionados e metodicamente articulados por forma a maximizar as dificuldades que causamos aos outros; a imaginação serve para quê, caralho? Para um gajo se divertir, foda-se, para um gajo se divertir! 

Sou às vezes acusado por mim próprio de estetizar o ditatorialismo do desejo de vitória, de condenar todos aqueles que diminuem as suas hipóteses de ganhar para ensaboar o futebol esteticamente atrativo (ex: hungria, eslováquia); acuso-me, e bem, porque o reforço! 

O que defendo para Portugal, no seu génio futebolístico, não é o futebol para o espectáculo da audiência, mas para que o prazer de quem lá dentro o está a jogar; e alguém se diverte esgotando uma vida a reforçar-se em função do outro colectivo? Não, foda-se, isso é um comício e as pessoas só gostam de comicios se houver cerveja, e infelizmente futebol e cerveja não conjuga. 

Proponho maximizarmos a nossas hipóteses de vitória re-inflacionando o prazer que proporcionamos ao jogador de campo em jogá-lo. Não se tente ver nisto um projecto, um programa, um método, deus nos livre salve bruno de carvalho guarde!; veja-se apenas como mais uma finta, uma finta a mais.

maradona